Em várias publicações, começo a ouvir a retórica que a linha de empobrecimento do mundo se encontra a subir. Leia-se para Norte, portanto. Há mais de 40 anos que consideramos o 3º mundo e os países subdesenvolvidos coincidentes com o hemisfério sul do planeta. Era lá que situávamos o espaço geográfico da pobreza. Ainda no final do século XX, o Saara separava a pobreza (muitas vezes extrema!) da maior prosperidade dos países a Norte.
Dizem-nos agora que essa linha de cintura subiu e estará posicionada a Norte do Mediterrâneo. Mas esperem lá!!! Esses somos nós! Os tais do clube Med! Há até multinacionais já a gizar as suas estratégias para que possam continuar a ganhar o seu dinheiro num mercado de pobretanas (veja-se a notícia há dias na imprensa de negócios sobre o reajustamento estratégico da Unilever!).
Mas afinal, mais do que as "análises" de especialistas, que de tanto repetidas à exaustão nos parecem verdades inquestionáveis (é assim que algumas ideias pegam, apesar de desmentidas pela realidade!), parece-me interessante procurar causas e aproveitamentos para a presença desta ideia no espaço público.
Lanço apenas pistas e
feelings que valem o que valem, pois continuo ainda a ter direito a opinião (graças à democracia existente que devemos exercer e cuidar):
- Um Objectivo de curto prazo será a justificação branqueadora de toda a austeridade, com uma ideia de inevitabilidade perigosa e de pensamento único;
- Quanto a Objectivos de Longo Prazo enumero o caminho que me parece estar a acontecer a passos largos: a promoção da existência de regimes políticos que possam comportar uma "democracia" mais musculada no "mundo ocidental". O surgimento e a justificação para regimes populistas (à direita, mas também possíveis à esquerda!) alimentam-se das contrandições sociais provenientes de situações sociais frágeis, que são, inclusivamente, fomentadas. Esses regimes para se auto-sustentarem dependem fortemente do alvitramento de sentimentos primários como o medo, a fome, a ameaça de uma existência sem dignidade... onde o valor da vida humana é posto em prato de balança com um punhado de moedas do outro lado...
Estes regimes e concepção de poder a eles inerentes, parecem
jogar com o facto da globalização poder ser garantia da diversidade geográfica dos mercados com um volume onde é possível continuar a ganhar muito dinheiro! O Capital é móvel e o Trabalho é fator dominado! A concentração da riqueza numa escala global garante mercado de luxo e disposto a pagá-lo à escala de umas quantas dezenas de milhões de pessoas em todo o Mundo...
Esta nova crença pode levar facilmente à ideia peregrina que, em circuito económico mais ou menos fechado esta "pequena élite" mundial pode dispensar a ideia da promoção de uma classe média com poder aquisitvo em cada um dos Países, que constitui a ideia-base das sociedades ocidentais sociais-democratas... Portanto, encontramo-nos à beira de uma alteração de paradigma? Onde os laivos feudalistas podem voltar a eclodir? Poucos dominantes e muitos dominados? Será que qualquer dia a profecia de Marx ainda se realiza?
Se não fossem as contradições do processo e a hipótese de escolha que ainda hoje nos assiste e que devemos e temos a obrigação de utilizar com sabedoria até diria que sim... Mas sinto que estamos a viver mesmo tempos especiais... Sugiro é que levantemos desde já pelas nossas convicções!
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