sábado, 4 de maio de 2013

O Contrato leonino

A propósito de um livro que ouvi falar, numa crónica de rádio que, por sua vez, se refere à Ilíada de Homero:
" A vida impõe-se-nos com um pagamento à cabeça: a nossa finitude! Desde muito cedo, a partir do momento que, em crianças, entramos no alvor da auto-consciência, que sabemos da morte!"

Agora a história que me apetece contar:

Luís, segurança no shopping, em intervalo para almoço, sentava-se numa das mesas da frente para a entrada das escadas rolantes, não muito longe do acesso às mesmas. A zona da restauração tinha o seu bulício, mas longe das enchentes de outrora.
Gostava de se sentar ali: tinha uma vista privilegiada sobre o piso da restauração, as escadas rolantes e ainda vislumbrava parte do piso de baixo.
Divagava distraidamente em pensamentos sobre o devir infinito das escadas rolantes que, por mais degraus subidos e descidos, eram sempre os mesmos! Depois de pisados, ordeiramente, continuariam a sua viagem, evoluindo para um estado plano, escondidos, por baixo, transportados através de uma correia de transmissão oculta, que não se vê e poucos conhecem!
Mas também quem se preocupa com o que não é visto? Quem deve ter conhecimento do processo, a não ser os homens da manutenção que, a espaços, se lá entranhavam por entre o vão que oculta o mecanismo?
Apesar de rolantes e móveis, sempre os mesmos degraus, os mesmos degraus, os mesmos degraus...
De repente, surgido do piso de baixo, uma espécie de clamor, numa alteração à ordem pré-existente dos ruídos habituais do shopping. Primeiro, algo impreciso. Luís alerta! Depois, mais audíveis, gritos de pânico! Claramente, ouvem-se 3 tiros! Luís levanta-se num ápice e desce em 6 penadas os degraus das escadas que ainda há pouco, por baixo, eram planos e ninguém os conseguia ver. O seu rádio emitia sons de vozes que Luís já não percepcionou, pois estava prestes a emergir na situação. Porta da Agência bancária do Shopping... Homem no chão... Suporte básico de vida... Nada a fazer... Funcionário do banco que há pouco tomou café junto a Luís e que, há instantes, Luís tinha visto descer as escadas rolantes, apenas tocando em dois dos degraus que Luís tocou para ir em seu auxílio.
Última imagem da estória: Crematório! Correia de transporte para o alto-forno! Família e amigos, comoção na despedida! Nova viagem? Para que estado evolui a correia de transporte do crematório? A parte que não se mostra depois de ter feito o seu transporte até ao fogo que arde sem se ver! Conseguem vê-la?
O momento da história do Homem que se repete para todos...

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